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ENTREVISTA: Ingrid Guimarães

Começou sua carreira no teatro e um de seus primeiros trabalhos foi Confissões de Adolescente, ao lado de Maria Mariana e Carol Machado, sob direção de Domingos Oliveira. Entre seus maiores sucessos nos palcos está a peça Cócegas, escrita e encenada em parceria com Heloísa Périssé. Na televisão, participou de programas humorísticos como Zorra Total e Escolinha do Professor Raimundo, além de atuar em séries como Casos e Acasos, Sob Nova Direção (novamente ao lado de Heloísa Périssé) e Chapa Quente. Participou dos filmes Avassaladoras, de Mara Mourão, e Polaróides Urbanas, de Miguel Falabella, antes de estrelar a comédia De Pernas Pro Ar (2010), de Roberto Santucci, que se tornou um imenso fenômeno de bilheteria, com mais de 3,5 milhões de espectadores. A continuação, De Pernas Pro Ar 2 (2012), se saiu ainda melhor, com 4,7 milhões de ingressos vendidos. Em 2015, protagonizou mais um fenômeno de bilheteria, a comédia Loucas Pra Casar, com público de 3,7 milhões.

Como é Amanda, sua personagem?

Ela é chefe do departamento de telemarketing de uma empresa e organiza a viagem que vai fazer com outras três meninas do departamento. É mandona, líder, já virou chefe das amigas, organiza a viagem, prepara tudo. É uma mulher muito fechada, daquelas pessoas com um vulcão dentro delas, mas que passam a vida tentando esconder isso. Amanda tem uma história triste, um trauma do passado que nunca contou para as amigas. Então tem uma coisa da mulher que manda, dura, mas que na verdade esconde uma vontade de amar e um pânico de ser amada. Essa viagem, para ela, é uma libertação, porque ela conhece o amor.

O público também gosta de ser surpreendido, não?

Esse é um projeto antigo. Estou nele há dois anos, mas ele já existe há mais tempo. Quando Belmonte me chamou e li o roteiro, falei de cara: “Tô dentro!”. É um caminho diferente de tudo o que tenho sido chamada para fazer no cinema. Depois do De Pernas pro Ar ficou tudo muito... grande, né? Nesse filme pude voltar para um personagem delicado, diferente. Ele até tem humor, mas é baseado em uma verdade absoluta. O filme foi adiado, quase saiu, não saiu, mas fiz de tudo para estar nesse projeto, porque sabia que seria um filme muito delicado e era o que estava procurando há muito tempo. Sem falar no fato de que Belmonte é um grande diretor de atores. Isso é uma coisa que os atores sabem e falam muito. Estava querendo trabalhar com um diretor que fosse autoral, que tivesse tempo para ensaiar. E ele trabalha com uma coisa de que gosto muito, que é o improviso. O filme é muito simples, é uma história em cima de questões simples, sentimentos simples.

 

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O filme também junta atores de origens muito diferentes.

Esse foi outro detalhe que me entusiasmou. São atores de escolas diferentes, cada um vem de um canto. Já tinha feito um filme com Fábio Assunção, mas sempre quis trabalhar com Alice (Braga). Da Carol Abras já era superfã. A Rosanne (Mulholland) entrou de última hora e parece que veio para complementar essa história. Então esse é um daqueles trabalhos na vida da gente que não é só um trabalho, virou um encontro, uma família. O fato de a gente filmar numa estrada, no motorhome, pelas praias, muito tempo fora de casa, dá uma certa sensação de solidão, e, ao mesmo tempo, de viver em grupo, de ficar todo mundo amigo. Você só fica pensando no filme o tempo inteiro. Além de sair da minha zona de conforto nesse filme, ainda tive que aprender a dirigir um motorhome e levar quinze pessoas dentro desse carro. Independentemente do resultado, para mim já foi muito importante trabalhar com essa delicadeza. E o Zé usa muito o ator, a história pessoal de cada para emprestar para os personagens. Então é praticamente um processo terapêutico (risos). 


"Foi um processo de grupo, de ir em nossos próprios sentimentos para emprestar para o personagem. A gente teve que se entregar de verdade, sem críticas. Belmonte deixa a gente muito à vontade, fica claro que está todo mundo no mesmo barco. Então você vai perdendo a vergonha, botando para fora todas suas inseguranças e aprendendo a se relacionar com os outros personagens."

Ingrid Guimarães

Como foi aprender a dirigir o motorhome?

Foi um processo! O filme tem um orçamento pequeno e muito pouco tempo de filmagem, então quase não tive tempo para treinar, passar um dia inteiro com alguém me ensinando a andar no motorhome. Então foi quase: “Primeira cena: dirige aí!”. E no roteiro tinha escrito “Amanda freia”. Ele não me mandou frear, mas eu quis ser CDF. E quando fui frear o motorhome, freei normalmente, como se fosse um carro. Só que um motorhome é como um caminhão ou um ônibus, você tem que frear devagarzinho. E foi um tal de despencar câmera, de cair um sobre o outro. Foi um trauma. Pensei: que responsabilidade, estou levando muita gente. Da equipe, tinham pelo menos dez pessoas ali. A partir dali fui treinando e no fim estava me sentindo muito poderosa. É um poder! Também foi outra etapa que passei, de perder o medo. De dirigir em estrada de verdade, de estar levando tanta gente.

Como foi o processo de preparação?

Fascinante. Eu vim do teatro, então é um processo muito parecido. O que para mim foi muito bom, porque sou muito entregue a esse tipo de processo. Era uma sala só com a gente. E o Belmonte trabalha com uma coisa mais sensorial, pouco psicológica. Ele procura a sensação do personagem. Foi um processo de grupo, de ir em nossos próprios sentimentos para emprestar para o personagem. A gente teve que se entregar de verdade, sem críticas. Belmonte deixa a gente muito à vontade, fica claro que está todo mundo no mesmo barco. Então você vai perdendo a vergonha, botando para fora todas suas inseguranças e aprendendo a se relacionar com os outros personagens. O que acho interessante é que, antes de começar a filmar as cenas mais difíceis, ele lembrava de tudo o que fizemos de improviso nos ensaios: lembra daquele improviso que vocês fizeram? Lembra daquela sensação? Lembra onde o personagem estava? Então: é isso. E como é muito físico e emocional, é fácil lembrar. Sem falar na pimenta, que ele coloca a gente para comer, e que já é considerado um clássico do Belmonte. O processo para mim foi tão importante quanto a própria filmagem.

Como foi trabalhar com as outras três atrizes do núcleo feminino?

O que posso dizer das meninas? Só de pensar que ficaria sem encontrá-las depois das filmagens já me deu uma tristeza. Foi um encontro muito profundo. Quando começamos, logo no primeiro ensaio, pensei: “O que estou fazendo com esse personagem que não tem nada a ver comigo?”. Fui lá para fora pensar e a Alice Braga estava fumando um cigarro, pensando: “O que estou fazendo com um personagem que não tem nada a ver comigo?” (risos). Falei para ela: vamos pedir para o Zé para trocar? Eu faço o seu e você faz o meu, já que o seu tem mais humor, é uma personagem mais yang? Vamos. Chegamos para o Zé e falamos: “Podemos trocar? Estamos desconfortáveis...”. E o Zé respondeu: “Que ótimo. Quem vai dar uma oportunidade para vocês de estar em outro lugar?”. Nos olhamos e, a partir daí, nos entregamos de vez. E acho que a delicadeza desse filme, a emoção, vem muito da relação que criamos entre nós. Além de termos ficado muito amigas, nós somos muito diferentes, mas acho que estávamos igualmente disponíveis nesse processo. Todas estavam querendo muito, e quando você quer muito uma coisa... Orçamento baixo, pouco tempo de filmagem, mas ninguém estava se importando, queríamos muito viver essa experiência.

E como foi o trabalho com o “núcleo masculino”, Fábio e João?

Eu já tinha feito um filme cômico com Fábio Assunção (Totalmente Inocentes, em 2012). Nós fazíamos apenas três cenas e nossos personagens eram totalmente cômicos. Reencontrei o Fábio num lugar totalmente diferente. E quando entrou o João, bem, sou a única mãe do grupo, né? Então, quando entrou o João e comecei a ver aquele processo do pai e do filho, fiquei muitas vezes emocionada. Porque como João não é ator, ele não veio preparado, não veio armado, não veio consciente de nada. Ele só veio. E nós acolhemos o João. Primeiro por uma preocupação: “nossa, ele deve estar sem graça, com medo de estar nesse set”, e eu com uma coisa muito maternal, de querer proteger essa criança. Nós nos apaixonamos pelo garoto. Cuidávamos dele. O Fábio às vezes ia viajar e deixava o João fazendo cena com a gente. O Fábio mandava mensagem: “Como está o João sem mim?”. E a gente respondia: “Perdeu! Seu filho nem pergunta por você!”. É impressionante como o Zé conseguiu tirar de uma criança, de um menino que nunca fez nada, uma sinceridade tão grande. Uma vez falei para o Zé assim: “Vem cá, como é que é isso, você dirige todo mundo, dá bronca em todo mundo, e para o João nada?”. Talvez ele tenha sido o menos dirigido de todos, porque ele tinha uma coisa tão pura e tão sincera, que o Zé, com a delicadeza dele (que também é pai de um menino), conduziu de maneira tão confortável. Nos preocupamos o tempo inteiro que o João se sentisse em casa, tanto dentro do set quanto fora.


"Cresci com os vizinhos na minha casa o dia inteiro. Tenho três irmãs. Então essa relação de amigas viajando juntas e dividindo tudo, três mulheres – na minha família somos dez mulheres, três filhas e seis netas, todas mulheres – me trouxe para um lugar muito familiar, muito gostoso. De volta para casa."

Ingrid Guimarães

Parte do filme foi rodada em Goiânia, sua terra natal. Como foi essa volta?

Pois é, na última hora, veio a minha cidade, porque sou de lá e resolvi pedir apoio para o governo de Goiânia. Fui falar com o governador e disse que gostaria muito de fazer um filme na minha cidade. As pessoas homenageiam tanto suas cidades. E há tão poucos filmes que se passam em Goiânia. Nos meus improvisos com o Zé, botei a personagem sendo de Goiânia, que é a minha verdade. É uma menina que vem de uma cidade menor, vai para uma cidade grande, acabamos conduzindo essa personagem para ser de Goiânia. E quando filmamos em Goiânia, para mim foi uma emoção enorme. A menina do catering eu conheci bebê. A casa onde vamos filmar o casamento é de uma mulher que eu conheço desde criança. Está tudo muito familiar para mim. O Zé é de Brasília, então tem uma coisa de quem vem do Centro-Oeste, de quem vem do cerrado. Tem a mesma energia, que não é de praia, é mais de mato, de rio. O goiano tem uma coisa muito da família, do amigo. Em Goiânia, amigo é primo, e primo é irmão. Cresci com os vizinhos na minha casa o dia inteiro. Tenho três irmãs. Então essa relação de amigas viajando juntas e dividindo tudo, três mulheres – na minha família somos dez mulheres, três filhas e seis netas, todas mulheres – me trouxe para um lugar muito familiar, muito gostoso. De volta para casa.


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