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ENTREVISTA: Fábio Assunção

Ator de cinema, teatro e TV, produziu quatro montagens teatrais em que também foi protagonista, entre elas Ricardo III, de William Shakespeare, com direção de Jô Soares, e Oeste, de Sam Shepard, dirigido por Marco Ricca. No cinema, destacam-se seus trabalhos em Bellini e a Esfinge (2002), de Roberto Santucci, Primo Basílio (2007), de Daniel Filho, e Sexo, Amor e Traição (2004), de Jorge Fernando. Atuou em diversas novelas da TV Globo, como Rei do Gado, Celebridade e Força de um Desejo. Também atuou nas minisséries Mad Maria, Os Maias e Dalva e Herivelto, e na série cômica Entre Tapas e Beijos, em cartaz desde 2011.

Como você chegou ao projeto?

O Zé (José Eduardo Belmonte, o diretor) me passou uma mensagem pelo celular, dizendo que queria falar comigo e perguntando onde eu estava. “Estou no aeroporto Santos Dumont”, respondi. E ele: “Eu também!”. Fomos tomar um café. Ele me falou do projeto, li o roteiro. Era ainda um roteiro antigo, que tinha uma viagem maior, ia para o Nordeste. E me encantei pelo filme. O encontro do meu personagem com as meninas é muito interessante, porque são quatro meninas, cada uma com uma história, o que ficou ainda mais claro quando as atrizes foram definidas. A Ingrid (Guimarães) traz uma informação, a Alice (Braga) traz outra; Carol (Abras), outra; Rosanne (Mulholland), outra... E isso dá uma pluralidade bem interessante. Cada uma vivendo sua história, mas todas tentando se adequar, falar a mesma língua. E me interessou principalmente a trajetória desse pai e desse filho. É uma coisa muito comum hoje também, porque no caso específico do filme, a mãe foi embora, estudar fora, e não conseguiu voltar. É uma história de abandono. Mas, por exemplo, eu me separei da mãe do João quando ele tinha um ano e oito meses. Também criei meu filho numa história nossa, numa parceria nossa. Por mais que eu tenha uma boa relação com a mãe, que a gente viva na mesma cidade, nossas circunstâncias são diferentes. Então, quando estou com João, somos só eu e ele. Depois me casei de novo, com a Carina, agora tenho uma filha, irmã do João. Mas a minha história com o João é uma trajetória muito “eu e ele”, uma história de dois caras. Então acho que tem muito a ver, também, a gente contar essa história.

Seu filho no filme é interpretado por seu filho na vida real, João. Como foi a decisão de trazê-lo para o projeto?

Em 2012, na noite em que O Gorila (sexto longa-metragem de Belmonte) foi exibido no Festival do Rio, fui conversar com ele sobre o projeto e nos perguntamos quem seria esse garoto. É complicado. As crianças, em geral, quando vão para o set, têm um “coach” (preparador). Essa pessoa pode dar informações não exatamente do tom do filme, o diretor vem e fala outra coisa. Os pais da criança também costumam estar no set, com outras informações. E as crianças têm seus limites. Tem uma hora que estão cansadas, não rendem mais. Pensei como teria tudo a ver ser o João. Dispensamos “coach”. Se o João está cansado, ele está comigo, deita no meu colo. O João fez esse filme de uma forma muito estável. Em nenhum momento teve um desconforto, no sentido de ficar no set, pastando. Toda a condução do Zé em relação ao João passou muito por trazer o que nós temos para o filme. Na verdade, não teve propriamente um convite, caiu uma ficha. Em nenhum momento tive a intenção de que ele fizesse esse filme e outro no ano que vem. Mais do que qualquer outra coisa, esse filme é o registro cinematográfico de uma parceria que já existe na vida. Então foi zero de cobrança. Ele não veio com nenhuma frase decorada. É ele na tela. E isso está trazendo uma coisa muito especial. É econômico, uma coisa muito pura, do jeito que ele faz. Acho que a escalação do João foi um grande acerto para o filme, e para mim também foi muito melhor. Estou muito à vontade. Mas isso é importante de dizer realmente: o João não está começando uma carreira de ator. Ele tem muitas possibilidades. Gosta de esportes, gosta de videogame. Nós fazemos nossas viagens. Fomos para a África. Assim como ele experimenta várias coisas, está tendo essa experiência aqui também. É muito natural.

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Ele aceitou na hora?

Primeiro conversei com a mãe dele, porque também não tinha sentido levar o convite se ela dissesse não. Mas ela concordou, então fui conversar com ele. “Filho, vamos fazer um filme juntos? Uma história de pai e filho”. E os olhos dele brilharam. Acho que ele não faria qualquer outro filme nesse momento da vida, se não fosse um filme assim. Na época ele tinha oito anos e o projeto demorou muito para sair. Ele ficava perguntando: “quando vai ser?”. “Em dezembro do ano que vem”. Chegava dezembro e... nada. “Mas quando vai ser?’. Eu estava quase desesperado. A gente já estava tão dentro do filme, se não acontecesse seria muito triste. Mas enfim aconteceu. Começamos a ensaiar e os ensaios foram incríveis. 


"Mais do que qualquer outra coisa, esse filme é o registro cinematográfico de uma parceria que já existe na vida. Então foi zero de cobrança. Ele não veio com nenhuma frase decorada. É ele na tela. E isso está trazendo uma coisa muito especial. É econômico, uma coisa muito pura, do jeito que ele faz. Acho que a escalação do João foi um grande acerto para o filme, e para mim também foi muito melhor. Estou muito à vontade."

Fábio Assunção

Como foram os ensaios?

Em nenhum momento ensaiamos texto. Nós brincamos com as cenas e as relações. O Belmonte teve isso também: jamais colocou o João numa mesa lendo texto. Era assim: qual é a cena? Um grupo dando risada? Então ele propunha um jogo, lúdico, e a gente se divertia fazendo. Fomos trazendo as relações do João. E isso também colaborou para deixá-lo mais à vontade. As meninas piraram com ele, ficaram apaixonadas, então ele também se sentiu muito bem-vindo, o que foi muito importante.

O filme tem dois núcleos, um feminino e outro masculino, de pai e filho. Como você vê o seu núcleo?

O roteiro tem muitos elementos legais. O motorhome é um charme, o Lada é um charme. Mas o principal é que o filme tem uma verdade, o personagem tem uma verdade. Não é muito fácil criar um filho separado. Principalmente nesse caso, mais extremo ainda, em que a mulher foi embora. Acho muito bonito o Afonso viajar com o filho sem dizer para onde. Isso valoriza a viagem. Então quando chega o momento do “filho, chegamos”, e ele vê a mãe, isso é muito poderoso dramaturgicamente. É muito importante nas nossas vidas a gente ser surpreendido pelo amor. Você perdeu o amor, mas vai em busca do que precisa, não se torna uma pessoa reprimida, angustiada. Isso é muito bonito na dramaturgia do filme. Ele está fazendo isso pelo filho, abrindo mão daquela raiva que sente. Afonso está angustiado porque está indo em direção a essa mulher e não sabe o que vai encontrar. Eles eram apaixonados. Tiveram um filho. Ele estava muito feliz com ela. Quando ela vai embora, é uma facada no coração desse cara. Quanta coisa ele não renunciou para ficar com esse filho. Com todo esse conflito dentro dele, pegar aquele Lada e encarar essa viagem é também uma trajetória de herói. E ele está aberto também. Quando ele encontra as meninas, tem esse encontro com as quatro. Homem separado tem muito isso, não tem como você começar uma relação com uma mulher que não compre a ideia do seu filho. Tem que passar esse sentimento de família, e a Ingrid traz isso para o filme. Ela é um ano mais nova que eu, também é mãe e está nessa vida há anos, é uma lutadora. E a descoberta do amor do personagem do João pela Krisse (personagem de Rosanne Mullholland) é outro detalhe incrível da história. Benedito está entrando na pré-adolescência, está deixando de ser uma criança, assim como o João. É o nascimento de uma independência, ele está dando seus primeiros passos sozinho.

Entre Idas e Vindas (5)

Qual a principal marca da direção de Belmonte?

Belmonte gosta de deixar o ator livre, gosta do improviso, não deixa as sequencias engessadas. A cena não tem um começo, meio e fim. No Entre Tapas e Beijos, por exemplo, por mais que exista espaço para o improviso, é televisão, tem um ritmo industrial, então quando o diretor fala “gravando” a gente está na marca e segue as direções. Mas no trabalho do Belmonte, o ator se apropria da cena e pode escapar da marca. Ele trabalha a energia das cenas nos ensaios, e o jeito que ele filma ajuda muito a gente.


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