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ENTREVISTA: Alice Braga

Estreou no cinema no curta-metragem Trampolim (1998), de Fiapo Barth, produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre. Sua participação como Angélica, em Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, lhe rendeu projeção internacional. Desde então, vem se dividindo entre produções nacionais e estrangeiras. Cidade Baixa (2005), de Sérgio Machado, foi selecionado para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes e lhe rendeu os troféus de melhor atriz no Festival do Rio e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. No Brasil, atuou em A Via Láctea (2007), de Lina Chamie; Cabeça a prêmio (2009), de Marco Ricca, e Muitos Homens Num Só (2014), de Mini Kerti (pelo qual ganhou o prêmio de melhor atriz no Cine Ceará), entre outros. No exterior, teve papeis de destaque em Eu Sou a Lenda (2007), de Francis Lawrence; Ensaio Sobre a Cegueira (2008), de Fernando Meirelles; Na Estrada (2010), de Walter Salles; Elysium (2013), de Neill Blomkamp; e El Ardor (2014), de Pablo Fendrik.

Como você vê sua personagem?

Sandra é uma mulher bem forte, bem orgulhosa. É explosiva, mas ao mesmo tempo também tem uma coisa muito engraçada com as amigas. É uma personagem diferente de tudo o que tenho feito ultimamente e está sendo muito especial. O Belmonte quis me colocar nesse personagem justamente para me tirar da zona de conforto, e me jogar mais para a comédia. Ela está num momento difícil, descobriu que foi traída pelo noivo às vésperas do casamento, mas, ao mesmo tempo, está com as amigas. Então tem o lado da explosão e do orgulho, mas também tem a leveza e a amizade. É uma jornada de descobrimento dela mesma. Sandra começa o filme de uma forma e
termina de outra. É uma personagem bem bonita.

Como foi o processo de preparação?

Meu desejo de trabalhar com Belmonte vem de muito antes desse projeto. Sempre soube que ele é um grande diretor de atores, o processo de ensaio é bem interessante, e sempre tive vontade de trabalhar com ele por conta disso. Belmonte gosta de construir junto. Ele propõe exercícios, e para um filme com seis atores isso é especialmente importante, para que a gente possa se conectar. Quando ele me chamou, fiquei muito a fim de participar independentemente do que fosse, porque queria muito fazer parte do processo. Quando ele me chamou, achei que o melhor caminho seria colar nele e entender o que queria, como a gente poderia desenvolver. E de fato é um desafio muito grande. Nesse filme Belmonte fez essa coisa muito especial: pegou a Ingrid Guimarães e a tirou do lugar da comédia e a colocou no drama; e me tirou do lugar do drama e colocou na comédia. Foi uma jornada bem
interessante.

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"Quando li o roteiro, a primeira impressão que me deu foi a de que fazer o filme seria uma coisa muito divertida. Lendo o roteiro já entendi que seria um ótimo projeto para fazer pelo clima que ele propõe. Fora isso, tinha esse lado da comédia, que é um timing totalmente diferente do drama."

Alice Braga

Como foi trabalhar seu lado cômico?

Quando li o roteiro, a primeira impressão que me deu foi a de que fazer o filme seria uma coisa muito divertida. Lendo o roteiro já entendi que seria um ótimo projeto para fazer pelo clima que ele propõe. Fora isso, tinha esse lado da comédia, que é um timing totalmente diferente do drama. O ritmo, a maneira como se constroem as cenas. Fizemos alguns exercícios para achar o tom do filme. Muitas coisas engraçadas se tornam tristes, muitas coisas tristes se tornam engraçadas. E o Belmonte explicou para a gente que esse era o tom do filme: nem um, nem outro. Mas a coisa do timing e das cenas específicas de comédia foram um desafio. Cada personagem tem um pouco de comédia, então era preciso entender em que momentos “sim” e em que momentos “não”. Toda a aproximação com as meninas foi muito importante. A Ingrid é uma grande atriz de comedia – ela até fala: “eu sou o Mickey Mouse” –, e eu nunca tinha feito. Então ela me dava vários toques, e eu dava toques para ela. Ela ajudava nas minhas cenas, eu ajudava nas dela... E isso foi fundamental. O elenco desse filme tem uma coisa especial por isso: o Belmonte pegou pessoas que vinham de mundos diferentes para se complementar. Adorei. Acho que cresci bastante e isso trouxe uma coisa muito especial para a história. 

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Belmonte é famoso por trabalhar com o improviso. Como foi?

Antes de começar cada cena, ele sempre grita: “Improvisa!”. Ou, às vezes, fala no meio do take. Ele te deixa muito solta. Nos ensaios, prepara a base do personagem, para na hora de entrar em cena você poder estar livre, conhecendo a estrutura do personagem. Tivemos muita possibilidade de fazer improvisação. Tanto que em determinado momento pegamos a câmera 5D e começamos a filmar algumas coisas nós mesmos, para ter um material extra, de complemento ao que estávamos fazendo no set com a equipe. Acho que isso vai agregar muito. E fazer um road movie é sempre muito especial. Já fiz alguns. Fiz uma participação no Na Estrada, no Walter Salles, mas esse foi muito especial por isso: é um filme de amizades, de reencontros.

Como foram os exercícios preparatórios?

Os ensaios sempre começavam com um dos atores puxando o aquecimento, e só esse detalhe já trazia uma conexão para o grupo. Não é só o Belmonte nos guiando, mas a gente já trocando desde o começo. Em um dos exercícios que ele propõe, por exemplo, os atores caminham dentro de um quadrado falando coisas do personagem. Em certo momento, para na frente de outro ator e conta uma história. E isso se repete, cada vez mais rápido. Essa aceleração vai te trazendo uma exaustão mental que te desconecta do mundo externo. Adorei esse exercício. E outro é que ele dá pimenta para os atores comerem. Na hora queria matar ele, mas, depois, entendi o que queria com aquilo, e faz muito sentido. Essas brincadeiras que ele faz para a gente acessar coisas que desconhecemos são muito legais. Sair do controle às vezes é muito importante.

Qual a história mais divertida do set?

Tem uma cena muito engraçada em que a Amanda, personagem da Ingrid, está nervosa e freia o carro. Foi muito divertido porque estávamos lá dentro e ninguém falou para ela que ela não precisava frear, era só para fingir. Então estava a equipe inteira, eu do lado dela. Falei o texto que era a deixa para a freada (“Amanda, fala comigo!”), ela freou e a equipe inteira que estava atrás voou para a frente. Viraram uma bola. O Dentinho, assistente de câmera, segurou a câmera. Ficou todo mundo com o olho daquele tamanho, mas logo a equipe se olhou e começou a rir. Como foi um filme de baixo orçamento, que levou quatro anos para sair e teve uma captação difícil, todo mundo entrou com muita paixão. E o Belmonte é um diretor que gosta de agregar as pessoas, de fazer você se sentir parte do filme. Todos os momentos em que estávamos no set, estávamos dando risada. O fato também de estar na estrada é muito especial, porque você está convivendo todo dia, trocando, aprendendo. Foi muito legal.


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