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ENTREVISTA: Carol Abras

Decidiu ser atriz aos 14 anos, quando passou a frequentar um curso de teatro perto de sua casa, em São Paulo. Aos 19, estrelou o curta-metragem Alguma Coisa Assim (2006), de Esmir Filho. Ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio pelo personagem Marcin, do filme Se Nada Mais Der Certo (2008), de José Eduardo Belmonte. Na TV, destacam-se seus trabalhos nas novelas Avenida Brasil (2012) e I Love Paraisópolis (2015). No cinema, seu mais recente trabalho foi em Sangue Azul (2014), de Lírio Ferreira.

Um dos seus primeiros trabalhos em cinema a chamar mais atenção foi num filme de Belmonte, Se Nada Mais Der Certo. Como foi voltar a trabalhar com ele?

Sim – antes eu tinha feito o curta Alguma Coisa Assim, do Esmir Filho, que também foi muito bem recebido, mas de fato meu personagem em Se Nada Mais Der Certo chamou muita atenção. O Zé é uma exceção à regra. É um diretor que trabalha com estímulos. É extremamente sensível, capta muito o que o ator tem a oferecer, e consegue tirar isso dele de alguma forma. O mais bacana é que nada é imposto, tudo é construído no coletivo. O meu próprio personagem é profundamente influenciado pelos outros personagens que estão no contexto da cena. É muito diferente da forma com que outros diretores e preparadores de elenco trabalham.

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Os atores costumam elogiar seu processo de preparação, incluindo o exercício da pimenta...

A pimenta é interessante, porque as pessoas em geral falam que serve para soltar um lado agressivo, mas, na verdade, acho que ela pode te levar para vários lugares. Ela me serviu para várias cenas. A pimenta simplesmente tira você de sua frequência normal, e de uma forma rápida. Se você ficar socando a parede, pode ficar horas e corre o risco de não funcionar. A pimenta age rapidamente e te transporta para um outro estado. É bem eficiente. Mas tem vários outros estímulos que o Zé usa, principalmente a partir de exercícios que deram certo no ensaio.


" É um personagem gostoso de se fazer. Nesse caso, não precisei de nenhum estímulo mais forte, é um direcionamento mesmo. Se você acha que está no lugar certo do personagem, mas o Zé acha que não, ele dá um jeitinho de te levar para outro lugar, muito sutilmente. Com poucas palavras, te conduz para outro caminho. "

Carol Abras

Como você define sua personagem?

Cillie é muito leve. É a única ali que foi realmente curtir uma viagem. Consegue estar ali e não ser afetada por nenhum problema, por nenhuma questão externa. Ela está só curtindo a viagem, acaba servindo de mediadora dos problemas, e costuma jogar com o bom humor como solução para algum estresse ou questão. É um personagem gostoso de se fazer. Nesse caso, não precisei de nenhum estímulo mais forte, é um direcionamento mesmo. Se você acha que está no lugar certo do personagem, mas o Zé acha que não, ele dá um jeitinho de te levar para outro lugar, muito sutilmente. Com poucas palavras, te conduz para outro caminho. É difícil verbalizar o processo dele, porque é tudo tão intuitivo, tão sensorial... Mas sou suspeita para falar do Zé. O Marcin (de Se Nada Mais Der Certo) é até hoje o personagem mais significativo da minha carreira, e foi uma criação junto com ele. 

Como o fato de o filme ser um road movie e exigir um constante deslocamento afetou o trabalho de vocês?

Afetou pelo lado bom. O fato de ter que se deslocar o tempo todo, viajar, todo mundo junto o tempo inteiro, ajudou para que a equipe realmente se unisse. No último dia todo mundo sofreu muito.

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Como foi contracenar com as outras três atrizes do núcleo feminino?

Já conhecia Rosanne (Mulholland) e Alice (Braga), que é minha amiga há tempos. Ingrid foi uma surpresa. É uma pessoa incrível, super bem-humorada, de bem com a vida. Adora trabalhar, adora ficar no set. É uma pessoa que troca muito. Fomos muito felizes nesse filme. As quatro atrizes, dentro das personalidades distintas de cada uma, só agregaram coisas. Cada uma agregou uma coisa para o grupo. A Rosanne com seu jeito calmo, inteligência emocional, uma pessoa muito serena; a Ingrid com seu bom humor, suas piadas; a Alice com seu jeito expansivo, pontual, bem ariana; e eu leonina ali, meio seguindo o fluxo.

E o trabalho com Fábio Assunção e João?

Num primeiro momento, não sabíamos como seria. Primeiro filme do João, ficou todo mundo meio apreensivo. E o João surpreendeu, conquistou todo mundo, emocionou todo mundo. É uma criança de verdade, não é um ator mirim. É um menino sincero, transparente. A criança não tem vício algum, então ela vai no fluxo. Ela não racionaliza a situação, simplesmente usa o imaginário e vai, segue a cena. E é encantador ver isso.

Os atores também filmaram, com uma câmera digital 5D. Como foi?

Pois é, o Zé dava a 5D na nossa mão e falava: “vai lá, brinca!”. Assumi o posto de diretora de fotografia e fui também. A maior parte das vezes operei a câmera. Às vezes, também queria aparecer um pouquinho e passava a câmera para alguém. Mas me apaixonei por isso, fiquei enlouquecida. A Ingrid guiando o motorhome e a gente filmando situações reais, de como seriam quatro pessoas viajando ali, com uma pessoa que dirige mal, todo mundo em pânico. Ficou muito natural (risos).

Uma das referências do filme são as comédias italianas.

Sim, antes das filmagens ele mostrou Aquele que Sabe Viver (Il Sorpasso, de Dino Risi, 1962), que tem uma cena maravilhosa em uma festa, com uma menina com a perna engessada, dançando a festa inteira, de biquíni. Quando chegamos no set da festa de noivado, que acontece no meio da estrada, tinha uma mulher com um cabelo muito estranho e um colete cervical. Uma homenagem a Dino Risi!


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